segunda, 29 abril 2019 14:57

Acervo de César Príncipe evoca quatro séculos de história portuguesa

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"Casa de Recordações - da Monarchia à Res Publica" reúne no Museu da Quinta de Santiago um acervo fantástico de objetos de outros tempos, da arte sacra aos autocolantes políticos do período pós-25 de Abril.

A exposição "Casa de Recordações - da Monarchia à Res Publica" abriu as portas no dia 25 de abril, mostrando parte do acervo reunido ao longo dos anos pelo jornalista César Príncipe, colecionador e divulgador cultural portuense.

Integrada no programa municipal de comemoração dos 45 anos de revolução de 25 de abril de 1974, a exposição ficará patente até 30 de junho. Mais do que ícones do seu tempo, os objetos reunidos por César Príncipe pretendem constituir-se como janelas abertas para o tempo passado, instigando os visitantes a refletir, investigar e descobrir.

Chapéu de Cerimónia PIDE

"A ponderação que um dos mais brilhantes intelectuais portuenses nos propõe permite dar continuidade e consistência ao programa museológico de um espaço que, ligado à memória da fidalguia de outrora, cumpre hoje, e de modo exemplar, a tão republicana e libertária tarefa de instruir e ilustrar, renovando e reinterpretando o entendimento possível sobre a arte, o impulso estético, o testemunho da cultura sobre a espuma dos dias que passam", afirma a presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Luísa Salgueiro, no texto que escreveu para o catálogo de “Casa de Recordações - da Monarchia à Res Publica".

Arte sacra portuguesa e flamenga dos séculos XVI a XVIII, peças decorativas, esculturas, pinturas, artefactos do quotidiano, fotografias, selos, medalhas e moedas, mas também pins, autocolantes, cartazes, gravuras, serigrafias, litografias, caricaturas, folhetos, panfletos e manuscritos ajudam a contar a história de quatro séculos de Portugal, cobrindo um período que vai do século XVI ao final do século XX, assente em três núcleos fundamentais – "Praça da Monarchia", "Praça do Império" e "Praças da República".

Dos pesados livros que guardam as linhagens da monarquia e da casa real portuguesa aos autocolantes da campanha presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, César Príncipe recolheu e colecionou vários outros objetos incluindo escarradeiras portáteis, caixas de rapé, discos de vinil com discursos do Movimento das Forças Armadas, revistas, edições raras de livros imortais, bolas de futebol, o último manual escolar da monarquia, panfletos da resistência clandestina a Salazar ou cartas a aprazar duelos.

Documentos Censurados

Não faltam também as obras de arte, de uma estatueta equestre de Gustavo Bastos a um dos muitos cavalos que Álvaro Siza Vieira desenhou, sem esquecer a documentação sobre os ofícios mais ou menos tradicionais, iconografia relativa à evolução do papel da mulher na sociedade ou uma sala dedicada à memória local do Porto e de Matosinhos. O resultado assemelha-se ao cruzamento de um fascinante inventário de bricabraque com a nostalgia minuciosa de um arquivista.

"Abrir frentes de inovação, memorização e problematização justificará uma existência, mesmo fugaz. As utopias não estão nas agendas. Mas a Casa de Recordações prezaria ser uma Casa de Interpelações", escreveu César Príncipe no texto de introdução deste delírio colecionista.

"Num momento em que, outra vez, voltam a pairar sobre a Europa os espetros sinistros do pensamento unívoco e do autoritarismo, do isolacionismo e da intolerância, os objetos reunidos por César Príncipe, e a reflexão que através deles nos propõe, afiguram-se como uma forma significativa de assinalar os 45 anos da liberdade conquistada em Abril de 1974", considera o vereador da Cultura da Câmara Municipal de Matosinhos, Fernando Rocha.

Ler 108 vezes Modificado em segunda, 29 abril 2019 15:57