segunda, 05 novembro 2018 21:35

A integridade intestinal

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A integridade intestinal

Imaginemos um castelo.

O castelo é o nosso corpo. As muralhas e os soldados são o nosso sistema imunológico.

Se imaginarmos esse castelo a ser invadido por um inimigo, os soldados que se encontram habitualmente a vigiar os quatro lados do castelo, vão ocorrer em massa no flanco onde o inimigo está a concentrar o seu ataque.

Ora, as áreas de maior contacto entre o organismo humano e o meio exterior são a pele, os orifícios (ouvidos, olhos, nariz, boca), o trato génito-urinário, o aparelho respiratório e, sobretudo, o intestino.

Por conseguinte, é fácil compreender que, enquanto a nossa grande “muralha” intestinal estiver permanentemente a ser “atacada” e a sua integridade seriamente comprometida, todos os macrófagos, linfócitos T e B (produtores de imunoglobulinas A), células dendríticas e praticamente todos os “soldados” que compõem a imunidade inata e adquirida do nosso organismo vão estar instalados na área abdominal com o propósito de travar a invasão inimiga, deixando desprotegidas outras áreas sensíveis do corpo humano.

As nossas defesas, ao resguardarem o intestino, irão acentuar as vulnerabilidades da área ORL. Surgem as rinites, sinusites, otites, amigdalites, etc.

A asma, urticária e eczemas são outros exemplos de reações de hipersensibilidade decorrentes de desequilíbrios imunológicos (e inflamatórios). Quando conseguimos regenerar a “barreira” do trato digestivo, também observamos melhorias assinaláveis nestas enfermidades.

É fácil, então, concluir que, para estarmos completamente saudáveis, é fundamental, acima de tudo, mantermos a integridade da parede intestinal.

Para tal, devemos evitar, em primeira instância, a ingestão errónea de alimentos desencadeadores de intolerâncias ou alergias.

E… quais são esses alimentos, afinal?

É sempre discutível, variando, subjetivamente, de pessoa para pessoa.

Há, contudo, determinados grupos de alimentos que podemos sentir-nos tentados a apontar como potenciais causadores de inflamação intestinal (mesmo subclínica) e, por consequência, de porosidade anómala ou leaky gut: os cereais (especialmente os contendo glúten), o leite de vaca, contendo a lactose e a β-caseína A1, as leguminosas e alguns frutos secos, contendo antinutrientes, as solaninas (batata, tomate, pimento, beringela), os alimentos ricos ou libertadores de histamina (peixes, frutos do mar e queijos envelhecidos) e certas frutas e legumes ricos em açúcares altamente fermentáveis.

Em bom rigor, todos temos a capacidade intrínseca de “sentir” quais os alimentos que não nos são benéficos. Basta optarmos por não ignorar os sinais que o nosso corpo nos vai enviando…

Depois há a flora bacteriana intestinal…

Da nossa mãe herdamos incontáveis estirpes microbiológicas que nos vão acompanhando desde a nascença. O parto natural e a amamentação providenciam uma linha de defesa única e competente. Ao longo da vida, um estilo de vida stressante e um uso continuado de alimentos processados e medicamentos, especialmente antibióticos, podem desferir um golpe letal nesta primeira barreira. Urge, pois, uma higiene emocional, social e alimentar apropriada em todas as etapas da vida.

Não obstante, sempre que há necessidade de ajustar a integridade da nossa barreira intestinal e, subsequentemente, da eficácia do nosso sistema imune, podemos recorrer à ingestão regular de alimentos pré-bióticos e probióticos.

Como pré-bióticos recomendo as fibras curtas da linhaça (recém-moída) e o mirtilo.

Como probióticos recomendo as inúmeras estirpes de lactobacillus, bifidobacterium e saccharomyces encontradas naturalmente nos preparados caseiros de kefir, kefir de água, viili, iogurte, kombucha, chucrute, pickles, etc.

Convém ressalvar que o iogurte, o mais famigerado e disseminado probiótico, contém somente duas estirpes - o Lactobacillus d. bulgaricus e o Streptococcus thermophilus. Quando fermentado domesticamente, será sempre uma excelente alternativa ao leite processado pois transforma a lactose e outros constituintes em compostos mais nutritivos e menos intolerantes. No entanto, os iogurtes comerciais são por vezes adulterados com gelatinas e amidos, desvirtuando a habitual capacidade probiótica.

É vantajoso consumir, por conseguinte, outros probióticos caseiros com maior variedade de estirpes benéficas como o kefir, se possível.

Mas se quisermos enveredar por outras alternativas económicas, podemos optar, inicialmente, por confecionar chucrute caseiro, por exemplo.

Ler 2717 vezes Modificado em segunda, 30 março 2020 22:41
Ricardo Novais

Ricardo Novais é naturopata. Licenciado em Ciências Farmacêuticas, com pós-especialização em Análises Clínicas e detentor de pós-graduações em Terapias Naturais e Complementares e Acupuntura Integrativa, Ricardo dá aulas de farmacologia e nutrição integrativa em várias escolas de saúde do país.

O seu percurso pela saúde preventiva começou há vários anos, com a convicção de que a base da nossa saúde está numa alimentação natural, ou seja, o menos processada possível, aliada ao exercício físico e à eliminação/redução do stress diário. Tentando voltar à Mãe Natureza, conseguiu integrar os seus conhecimentos científicos com o poder curativo da Terra, proporcionando alternativas a nível alimentar, nutricional, e terapêutico.

Rúbrica “Cozinhar com amor, naturalmente…”

Mercê de um estilo de vida moderno, o ser humano passou a estar mais sujeito aos tóxicos externos, provenientes da poluição do ecossistema, da alimentação industrial, processada, e do uso exacerbado de medicamentos e aos tóxicos internos, produzidos pelo organismo quando se encontra em permanente stresse.
Devemos saber reconhecer os sinais que o corpo evidencia quando começa a ficar sem capacidade de eliminar os excessos. Devemos estar alertas para os perigos que podem sobrevir dessa intoxicação.
É fundamental conhecermos as ferramentas adequadas para favorecer a eliminação dos resíduos acumulados a nível celular e tecidular.
Da paleodieta ao crudivorismo, vamos mostrar comida simples e fácil de confecionar. Com um enfoque na conjugação de nutrientes e sabores e na transformação acertada dos alimentos, vamos proporcionar a melhoria da digestão, otimizar a assimilação dos macro e micronutrientes, potenciando assim a performance do corpo humano e a eliminação das toxinas.
Tudo sem abrir mão duma gastronomia rica e saborosa.